Na sombra da gravidez se esconde um dado preocupante: dois terços das futuras mamães ganham quilos além da conta durante a tão esperada etapa da vida. E engordam a epidemia de obesidade depois do parto.

Uma das razões desse engordar é psicológica e até cultural: sabe aquele ditado de que a grávida come por dois? Então… “Dobrar o volume da alimentação é errado. Deve haver um acréscimo, mas o feto é pequeno e não precisa de tantas calorias”, salienta Vanessa Liberalesso, pediatra do Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba, no Paraná.

Mas a subida exagerada do ponteiro da balança também ocorre por questões fisiológicas. “Hormônios produzidos pela placenta aumentam a capacidade de armazenamento dos adipócitos, células que estocam gordura”, completa Maria Edna de Melo, endocrinologista da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica, em São Paulo. Aí, qualquer excesso à mesa vai direto aos pneuzinhos.

IMC

Inquieta com as consequências disso – gestantes obesas correm mais risco de sofrerem com dores articulares e partos prolongados, entre outras complicações mostradas no quadro da página 45 -, Maria Edna fez uma revisão de artigos em que destacou um índice de massa corporal (IMC) feito para as mulheres que hospedam um bebê no ventre. “É uma das ferramentas para observar se o ganho de peso da mãe durante os nove meses está dentro dos padrões”, reforça a pesquisadora. “Só precisamos lembrar que o tamanho do filho e da placenta varia de mulher para mulher, o que limita o cálculo”, contrapõe Luciana Taliberti, obstetra do Hospital São Luiz, na capital paulista. Por mais que a confirmação de um especialista seja necessária quando o resultado aponta uma eventual obesidade, a estimativa serve, no mínimo, para verificar se o ventre está evoluindo como deveria ou se ganhou excessos gordurosos demais.

Aquela história de que toda mãe é igual, principalmente quando o assunto é gestação, não poderia estar mais errada. Só a composição corporal já mexe com todo o planejamento desses cerca de 280 dias de espera. “Caso esteja com o peso adequado no início, indica-se um acréscimo médio de 85 calorias por dia no primeiro trimestre. Já uma obesa, dependendo do caso, não precisa de complemento no começo”, compara Manuela Dolinsky, nutricionista da Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro.

Ou seja, ficar atento ao prato é ainda mais importante nesse período. Em vez de optar por uma bisteca frita para garantir o aporte de gordura, por exemplo, que tal investir em uma bela posta de salmão ou nas sardinhas? Afinal, elas fornecem ômega-3, um ácido graxo poli-insaturado que, além de trazer energia, é importante à retina e ao cérebro do feto. Já o excesso de gorduras saturadas, presentes em carnes gordas ou no óleo de dendê, anula o efeito do consumo dos peixes citados.

Uma nutrição adequada também atenua incômodos que acometem constantemente as grávidas, como a prisão de ventre. Para se livrar dela, o certo é recorrer às fibras das frutas e dos cereais. “Acompanhadas de água, elas regulam o intestino e ainda promovem saciedade, evitando exageros nas refeições”, salienta Vanessa Liberalesso, do Hospital Pequeno Príncipe.

GRAVIDEZ E SEDENTARISMO NÃO COMBINAM

Muitas mulheres, com o intuito de proteger sua cria, deixam de se exercitar – ou veem na fase outra justificativa para estender a preguiça e nem começar. Acontece que as atividades físicas, desde que leves, não oferecem risco na maioria dos casos. E, claro, são grandes ajudantes na manutenção do peso. Isso porque queimam calorias e mantêm os músculos, grandes gastadores de energia, em forma. “O exercício ainda está associado à menor incidência de enjoos e de dores na região lombar”, explica o educador físico Renato Rocha, da Universidade de Taubaté, no interior de São Paulo.

Há, contudo, cuidados especiais. Em primeiríssimo lugar, a gestante precisa do acompanhamento de um médico especializado. Só ele consegue flagrar eventuais complicações que, aí sim, exigem o afastamento de certas práticas. Esportes com bola ou outros acessórios que podem atingir a barriga devem ser evitados, assim como aqueles em que existe a possibilidade de um encontrão.

“Recomenda-se também preferir modalidades que não envolvam mudanças bruscas de direção ou freadas intensas”, complementa Rocha. “É que, durante a gestação, a mulher fabrica relaxina, hormônio que afrouxa ligamentos e tendões”, esclarece. Sintomas como dor, sangramento vaginal ou tontura durante a ralação são sinais de que algo não vai bem. Mas, respeitando os limites, dá para se manter ativa, bonita e, acima de tudo, saudável durante todos os nove meses.

OS RISCOS DE UMA GESTAÇÃO GORDUROSA

• Diabete gestacional

Três vezes mais frequente em grávidas que brigam com a balança, ele geralmente faz o feto crescer demais, o que dificulta o parto. De quebra, aumenta o risco de hipoglicemia do pequeno logo após o nascimento.

• Pré-eclâmpsia

Essa alta na pressão é mais comum entre as cheinhas. Se não tratada, torna-se uma séria ameaça à mãe e ao filho.

• Infecções

Muita gordura prejudica o sistema imune. Aí, os vírus atacam, especialmente na hora do parto.

• Defeitos neurais no filho

O folato, achado no feijão e no espinafre, é tão importante para a formação do sistema nervoso do feto que costuma ser suplementado às mulheres. Nas gorduchas, porém, a vitamina é menos aproveitada.

 Fonte: www.mdemulher.abril.com.br